kafka

Monday, October 25, 2004

sem TGE

O judiciário, pelo seu poder coercitivo, não deve funcionar apenas na regulamentação das relações sociais ou como moderador na desigualdade das forças, mas como espelho onde o cidadão possa perceber-se como tal. Concebendo então o Poder Judiciário como aclarador da cidadania fica mais óbvio seu papel transformador na interação do Estado com o cidadão e vice-versa.
Uma justiça atuante, ética e sobretudo democrática não só bem assiste o povo sobre o qual estende sua tutela como gera indivíduos interessados na própria justiça, conhecedores da lei, convencidos de seus limites bem como de seu alcance e, o mais importante, não tão susceptíveis às investidas dos agentes nocivos à democracia.
Porque um povo desassistido em seu direito à igualdade - princípio maior da justiça - é roubado em todos os outros, e está à mercê de toda sorte de interesses; é presa fácil do charlatanismo, da ciência desumana, do tráfico, do capitalismo antiético, da mídia; esta que toma as rédeas da justiça, encontrando oportunidade em suas falhas cada vez mais frequentes, angariando a simpatia popular, solucionando questões isoladas com presteza, procrastinando o despertar da consciência da massa que bem se acostumou com os remendos diários.
O mais desesperador é que, se por um lado o povo não pretende tão cedo tomar para si o que é seu por direito, o Estado, vendo as "amas" embalarem seus rebentos, alivia-se, acomoda-se, dedica-se aos seus outros interesses. É como se o Estado tivesse seu fim em si mesmo e o contrato firmado com seus tutelados fosse repassado a quem possa interessar.

Thursday, October 21, 2004

Brasil

Ser filho dessa mãe é custoso porque a gente tem vontade de amar, mas odeia; tem vontade de fugir, mas fica; tem vontade de enaltecer, mas cospe. A gente chora hasteando a bandeira e a gente ri votando, volta chorando, torce escondendo um entusiasmo relutante do qual eu me envergonho. Civismo é, assim, um sentimento nostálgico, um amor e uma saudade da mãe que morreu não sem antes partir resignada à sua sorte comprada. Nada nos disse e ficamos órfãos e alheios. Leiloaram a batuta, superfaturaram na compra da tinta e das penas viciadas. Desnudaram a deusa do fórum atropelada por uma história do velho mundo, que veio soltando fumaça, bufando cega e obsecada. Hoje Themis leva à mão direita um canudo, à esquerda uma agenda de telefones e ramais. Veste-se com o que sobrou da túnica e não dá informações. Dizem que perdeu o juízo e tem medo de contar quem é.

"Fomos desmamados prematuramente para que aos marmanjos sobrasse teta; fomos negociados em bacias para que a balança lhes fosse favorável; fomos estuprados por ordens superiores, por deliberação dos proxenetas que dançavam minueto enquanto sussurravam maravilhas ao pé das orelhas, gentilmente seduziam-se ao som dos nossos urros."

O Brasil está crescendo.
Pra quem? Por quê? Quem deixou?
Posso também?